Quando a areia se torna território de todas

O futevôlei faz parte da tríade de esportes legitimamente cariocas. Assim como a altinha e o frescobol, a atividade nasceu nas areias do Rio de Janeiro, mais precisamente na Praia de Copacabana. Estávamos em meados dos anos 1960, e a ditadura militar havia proibido a linha de passe à beira-mar.

Um grupo de jovens, acostumados a dar toques na orla, encontrou uma solução criativa: adaptar o vôlei para ser jogado com os pés, criando um novo esporte que, décadas depois, se tornaria fenômeno global. O que poucos imaginavam naquela época é que essa invenção se transformaria também em um poderoso instrumento de inclusão e empoderamento feminino.

Durante muito tempo, as quadras de futevôlei nas praias de Copacabana e Ipanema eram território quase exclusivamente masculino. As mulheres que ousavam entrar na areia enfrentavam olhares desconfiados, comentários desrespeitosos e uma resistência velada que refletia preconceitos arraigados. Mas esse cenário vem mudando radicalmente. De acordo com a Federação Paulista de Futevôlei, a prática desse esporte aumentou mais de 250% durante a pandemia, e a participação feminina mais que triplicou durante os últimos três anos.

Transformação cultural

O crescimento não é apenas numérico. Representa uma transformação cultural, uma ocupação de espaços que historicamente negaram às mulheres o direito de competir, suar e celebrar suas habilidades atléticas. O primeiro Campeonato Brasileiro de Futevôlei Feminino foi realizado em 2006, e, cada vez mais, elas se fazem presentes em torneios e redes mundo afora. Hoje, é comum ver grupos inteiramente femininos dominando as quadras, executando dribles acrobáticos, cabeceios precisos e jogadas que arrancam aplausos de quem assiste.

A conexão entre o futevôlei e o universo wellness vai além da atividade física intensa. O condicionamento cardiorrespiratório, força, flexibilidade, potência muscular, mobilidade e estar com o pé na areia trabalhando tudo isso só traz ganho para a saúde. Cada partida é um exercício completo que mobiliza pernas, core, equilíbrio e coordenação motora de maneira integrada e funcional. Diferentemente de treinos em academias fechadas, o futevôlei acontece ao ar livre, com os pés descalços tocando a areia quente – o som das ondas ao fundo e a brisa salgada no rosto.

Mas os benefícios transcendem o físico. A modalidade traz também vantagens para a saúde mental. O esporte coletivo cria laços de amizade, constrói redes de apoio e oferece um espaço de socialização fundamental ao bem-estar emocional. Para muitas mulheres, a quadra de futevôlei se tornou um território de liberdade, onde podem ser competitivas, barulhentas, suadas e poderosas sem pedir licença a ninguém.

Mudança significativa

As professoras que ensinam futevôlei relatam uma mudança significativa na composição de suas turmas. Algumas chegam a ter mais alunas do que alunos, invertendo completamente a lógica de décadas anteriores. Mulheres de todas as idades, dos 18 aos 60 anos, descobrem no esporte uma forma de se reconectar com o corpo, de desafiar seus próprios limites e de encontrar uma comunidade acolhedora que celebra cada conquista, por menor que seja.

Na Praia de Copacabana, onde tudo começou, as escolinhas de futevôlei agora recebem meninas e mulheres em busca de uma atividade que combine exercício intenso com diversão genuína. O ambiente, que já foi hostil, hoje se transforma em espaço de celebração. Cada nova jogadora que entra na quadra pela primeira vez é um passo adiante na construção de um esporte mais democrático e inclusivo.

O futevôlei, esporte que nasceu de uma proibição e de um impulso criativo, agora se reinventa novamente. Dessa vez, para derrubar barreiras de gênero e provar que a areia da praia é território de todos. E quando o sol se põe sobre a orla, tingindo o céu de laranja e rosa, as silhuetas na quadra já não são apenas masculinas. São mulheres que saltam, giram, cabeceiam e gritam de alegria, reescrevendo a história de um esporte que finalmente aprendeu que é mais forte quando todos jogam.

 

Escolinha de Futevôlei Léo Tubarão
Avenida Atlântica, em frente ao nº 2266 – Copacabana