A alma da MPB tem casa e mora na Urca. No aprazível bairro da Zona Sul, Ricardo Cravo Albin fundou, em 2001, o ICCA – Instituto que leva seu sobrenome.

Debruçado sobre a Baía de Guanabara, o ICCA oferece aos visitantes uma das mais impressionantes vistas da Cidade Maravilhosa. A construção de aparência despojada ganha contornos nos fundos, aos pés do morro da Urca e envolvida pela Mata Atlântica.

Além da vista deslumbrante, o Instituto guarda uma joia: o Largo da Mãe do Bispo. O cobiçado espaço é palco das celebrações mais memoráveis da crônica carioca. Tradição criada pelo inesquecível Júlio Senna, a qual Ricardo Cravo Albin mantém até hoje. Atrás do apartamento de cobertura, a escadaria branca leva a um platô, transformado numa fidedigna réplica do histórico Largo — que, na época colonial, existiu onde hoje está a Praça Floriano. Milagre? Não, pura criatividade do decorador Júlio Senna. Grande anfitrião, ele conseguiu criar sua boîte à surprise particular.

Após a morte de Júlio Senna, em 1988, Ricardo Cravo Albin correu e conseguiu arrematar o imóvel. “Foi como acertar na loteria”, recorda. Alguns anos depois, Ricardo doou o imóvel à cidade do Rio, criando o ICCA.

De quebra, o patrono deixou também valioso acervo acumulado ao longo de sua vida.

Desde então, os eventos no Largo da Mãe do Bispo passaram a flutuar sempre em torno de temas mpbísticos. Entrou para a história do Largo a famosa festa em homenagem a Gilberto Gil. “O inusitado da noite foi que Gil ficou preso em Brasília e não conseguiu vir”, recorda Ricardo.

A celebração dos 90 anos do samba, em março de 2007, também deu o que falar. O evento “Samba: 90 anos de glória – da cachaça ao champanhe” reuniu a fina flor do samba. Vó Maria, viúva de Donga, pôde ouvir a ala das “Baianinhas” do Império Serrano entoar o samba pioneiro “Pelo telefone”, matriz do gênero musical reconhecido mundialmente. O festivo Largo também foi palco da série Saraus na Pedra, homenageando grandes nomes da música popular brasileira.

História

A doação de Ricardo não foi um esforço solitário.

A ideia encontrou eco em outros cantos, fazendo do Instituto um catalisador cultural do Rio. Uma lista que vai de Nélida Piñon a Joaquim Falcão, passando por Anna Bloch e Mary Ventura, mostra alguns dos parceiros de Ricardo Cravo Albin para que o projeto do Instituto Cultural Cravo Albin siga em frente e se amplie. Vitrolas, vinis, programas de rádios e vestimentas fazem do ICCA uma espécie de Museu da MPB. Juntaram-se à proposta nomes como Geraldo Casé, Everardo Magalhães Castro, Mario Priolli e Ivon Curi. Além da boa vontade, trouxeram peças importantes para se montar o quebra-cabeça chamado MPB. As doações vão desde objetos antigos a gravações históricas — como um encontro de Pixinguinha, Tom e Vinícius no Club de Jazz e Bossa.

“A vocação do doador é desprender-se da própria coleção em benefício de outra, em muito, superior a sua. Ao agir assim, tem a convicção de alojar os objetos de sua estima junto a quem sabe dar dimensão real ao material recebido. Renunciei aos meus discos, preciosos para mim, obedecendo à urgência histórica de incorporá-los à coleção do Instituto Cultural Cravo Albin. Sabia que, à sombra do estudioso, estaria contribuindo para enriquecer o repertório brasileiro e preservar a nossa memória musical”, explica a escritora Nélida Piñon. A imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) cedeu sua coleção com cerca de cem álbuns de MPB.

Preservação do acervo

Uma das primeiras ações desenvolvidas pelo (ICCA) foi o restauro de vinis. O Instituto, numa iniciativa nunca implementada no país, começou a recuperar seu acervo de vinis de música popular brasileira, utilizando uma metodologia inédita. A técnica nasceu de um arranjo perfeito. Ricardo Cravo Albin queria preservar a coleção de álbuns formada ao longo dos anos e que acabara de doar ao recém-criado Instituto. Já o arquivista e conservador Sérgio Albite se inquietava com a inexistência de um método que preservasse tão preciosos objetos musicais. A ideia virou projeto de pesquisa. O apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) viabilizou a implementação. A proposta aprovada previa a recuperação dos vinis de MPB — metade do acervo de 16 mil discos do ICCA. “O vinil vira protagonista do cenário fonográfico nacional a partir de 1964. Antes, tínhamos os discos feitos de goma-laca, com 78 rotações por minuto, enquanto o vinil tem 33”, explica Albite.

O método desenvolvido pelo ICCA consiste em quatro etapas: preservação física dos discos, processamento da informação, digitalização do som e da imagem da capa. Seria assim tão simples como colocar um CD para tocar? Nem tanto, como mostra as explicações técnicas de Sérgio: “Começamos com uma limpeza mecânica, usando jato de ar. Em seguida, lavamos os discos com um detergente especial. Após a secagem, aplicamos outra sessão de jato de ar”, resume. O detergente elimina fungos, manchas e a oleosidade causada pelo manuseio. Mas o pulo do gato desse processo está justamente na acomodação dos discos: em vez do usual plástico, o vinil é embalado num produto importado — o tyvek.

“É um dos elementos pioneiros. Além de anti-abrasivo, o tyvek é resistente, neutro e estável”, ensina.

Seja pela história, pela vista ou pelo acervo, o Instituto Cultural Cravo Albin é parada obrigatória para entender a essência da carioquice!

 

Instituto Cultural Cravo Albin
Avenida São Sebastião, no 2 – Urca
Visita guiadas agendadas pelo telefone: (21) 2295-2532