Sal, céu e sol
Poucas coisas lembram mais o Rio de Janeiro do que aquele cenário de praia, mar e ondas batendo, com o Morro Dois Irmãos ou a Pedra do Leme ao fundo. Mas, em um momento em que a cidade ainda está acordando, alguns aventureiros enxergam a beleza carioca por outro ângulo: de dentro do mar. Disciplinados e corajosos, alguns nadadores trocam o conforto das piscinas pelo agito do oceano.
A natação exercita todo o corpo, aumenta a capacidade respiratória, fortalece o coração e melhora a coordenação e a flexibilidade. No mar, as condições de temperatura, vento, correnteza e sentidos de navegação exigem ainda mais do corpo. Essa atividade, além de fazer bem para a saúde física, surge como uma nova possibilidade para a mente e o autoconhecimento.
Aos 50 anos, Idalenajara de Jesus Ribeiro Saraiva decidiu que havia passado da hora de aprender a nadar. Ainda durante a pandemia de Covid-19, por recomendação de seu cardiologista e em busca de uma nova atividade que a salvasse das incertezas do momento, se matriculou em sua primeira aula na piscina. Em pouco tempo, já se sentia uma sereia. Com novas amizades e uma inédita habilidade em desenvolvimento, os companheiros a chamaram para um novo desafio: a natação no mar.
Ida sempre teve medo do oceano, principalmente de baleias. Por coincidência – ou não –, após alguns meses de insistência, aceitou a missão e foi com o grupo para as águas de Copacabana com a equipe Jubarte. A primeira vez não foi fácil – travou, pensou que não fosse conseguir e até chorou. Mas, em seu tempo, ao lado do instrutor da equipe, conseguiu vencer suas próprias barreiras. Entrou, ficou e não largou mais o mar.
Outro ângulo
“O pânico é normal, acontece até hoje, mas passa. É bom demais, só você ali com a natureza, o sol, o sal, o mar, aquela imensidão e a cidade vista de outro ângulo”, diz. Nem ela imaginava que se apaixonaria tanto. Inicialmente, a ideia era só superar o medo, mas ele não passou. Porém, como faz questão de enfatizar, “medo é para se enfrentar e não para tomar conta da gente”.
A natação mudou a vida de Ida. Diferentemente de outros exercícios, essa prática estimula um movimento que não é natural para nós. Dessa forma, o foco nas ações funciona de forma diferente. “Quando você está no mar, não pensa em mais nada do que está acontecendo lá fora. Tudo está conectado ali, com a água e a coordenação correta dos movimentos. É uma terapia de concentração e abstração total. Recomendo e quero que todo mundo tenha essa experiência. É introspectivo, realmente terapêutico. O sal lava, não tem como sair do mar irritado. A sensação é de liberdade.”
Depois de desbloquear essa nova habilidade, ela logo entrou no mundo das competições. Poucos meses depois de sua primeira experiência nas águas do oceano, já estava com sua medalha de Rainha do Mar nas mãos. “Na época, fui a terceira na minha faixa etária. O esporte é isso, você quer sempre se superar, fazer mais, quer fazer um tempo melhor, melhorar performance física. É uma brincadeira gratificante. Esporte é qualidade de vida.”